O Enigma do mal

Texto: I Pedro 5:8-11

Objetivo do Estudo:

- Saber que o mal não é uma realidade independente de Deus, que há um propósito divino em permiti-lo; que Deus tem o controle absoluto sobre ele, no tocante à sua origem, duração e intensidade, e providenciou meios para lhe resistirmos.
O estudo numa frase:

- Deus não é o autor do mal, mas permitiu que ele acontecesse para cumprir Seus propósitos no mundo até o momento em que o eliminará.
Panorama bíblico:

- O texto de Pedro destaca nossa atitude diante dos ataques de satanás. Ele é como um leão sempre procurando alguém para devorar. Então, qualquer descuido pode ser fatal.

- Pedro quis chamar a atenção para o estado de prontidão que os cristãos devem ter. Pedro diz que devemos resistir firmes na fé.

- O objetivo do diabo é nos fazer abandonar a fé, portanto, vencemos quando permanecemos firmes.

- Pedro diz que os cristãos do mundo precisam passar por isso. Mas ele garante que Deus irá completar sua obra em nós e até mesmo usar essas lutas e dificuldades para nos aperfeiçoar.

INTRODUÇÃO

- Por que Deus permitiu e permite a existência de satanás?

- Não há dúvida de que Deus poderia ter impedido a queda dos anjos ou mesmo exterminado todos eles a fim de não causarem todo o mal que vêm causando ao longo das eras.

- Essas criaturas são perversas. Então, por que Deus permitiria a existência de um ser tão mau?

- Essa pergunta nos faz voltar à questão da própria origem do mal. De onde veio ele?
- Falar sobre a origem do mal é entrar num dos caminhos mais obscuros e pouco trilhados da teologia.

- Poucos se aventuraram nessa estreita senda cheia de armadilhas e dificuldades, onde facilmente se pode tropeçar e cair na heresia e até mesmo na blasfêmia.

- A pergunta “quem criou o mal?” é uma daquelas questões da qual todo professor de Seminário ou de Escola Bíblica gostaria de fugir.

I – A ORIGEM DO MAL

- No mundo antigo, sempre se acreditou que havia um deus bom e um deus mau.

- Modernamente, essa crença denominada dualismo tem ressuscitado em muitos lugares, especialmente nos movimentos ligados à Nova Era.

- O dualismo identifica essas duas forças como iguais e dependentes uma da outra, como se uma completasse a outra. Esse conceito está muito longe de ser bíblico.

- De acordo com a Bíblia, satanás não é igual a Deus. Deus é o único Soberano, satanás é uma criatura rebelde de Deus. Não existe comparação, Deus é o Rei por excelência, satanás não passa de um usurpador.
Qual a origem do mal?

- Nunca teremos uma resposta completamente satisfatória, pelo menos nesta vida.
Algumas perguntas que podem ser feitas nos ajudam a pensar no assunto.
1 – De onde veio o mal se Deus é o criador de todas as coisas?
2 – É satanás o criador do mal?
3 – Como ele teria criado o mal se ele próprio era bom antes de pecar?
- Para começar uma coisa precisa ficar absolutamente clara: Deus não é o autor do mal.

- Seja qual for a resposta que dermos para a origem do mal, ela precisa necessariamente excluir Deus (Tiago 1.16-17), pois se Deus fosse o autor do mal não poderia ser o Deus bom e justo no Qual cremos. Deus é o criador de todas as coisas, mas não é o criador do mal.
- Então, seria satanás o criador do mal?

- Se satanás fosse o criador do mal isso faria dele alguém que realmente está em competição direta com Deus.

- A verdade é: o mal não foi necessariamente criado. Ninguém o criou do nada e de forma específica.

- Portanto, o mal é o que pode ser chamado de uma ou seja, fruto do uso de coisas que já existiam, como por exemplo, o livre-arbítrio, a personalidade e o poder de satanás.

- Nesse sentido, Deus dotou satanás com essas qualidades e ele as usou para originar o mal. Isso é o máximo que podemos dizer, é o limite até onde podemos ir.

- Podemos entender que o pecado não tem origem, mas só um início.

- Vemos estudiosos que apelam para a expressão de Isaías, onde Deus diz: “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas” (Isaias 45.7), como uma prova de que Deus é o autor do mal.

- O contexto da passagem em questão sugere que esse mal não se refere ao mal último, metafísico, mas uma situação específica, que no caso dos judeus, seria a vinda dos caldeus contra a nação (Romanos 9.16-18).

- O mal nesse texto se refere mais a algo como a calamidade, e não ao pecado (ver nota em quadro ao fim do tópico).

- O fato de a Escritura não dar explicação direta sobre a origem do mal, mas por outro lado mostrar o papel do mal é uma indicação de que esse último deve ser o foco da nossa atenção.
- A origem do mal, contudo, sempre será uma incógnita para nós.
- Isaias 45.7 – Crio o mal. Isto não quer dizer que Deus seja moralmente responsável pela existência do pecado.

- O “mal”, heb rá, inclui tudo o que os homens chamam de mal: desgraça, punição, infortúnios, dificuldades, coisas que sobrevêm ao homem por causa do pecado no mundo, consequências de uma situação que Deus está pronto a remediar, se entregarmos os nossos caminhos a Ele, aceitando o castigo e a correção das Suas mãos.

- Deus age nos mínimos acontecimentos, mas faz do mal surgir o bem, e finalmente livra os seus de todo o mal.

- O versículo também combate a grande religião nacional da Pérsia, que faz do universo um palco de infinda luta entre dois deuses, Ahura Mazda, o deus da luz, e Arimã, o deus das trevas.

- A Bíblia ensina que todas as coisas estão dentro da providência divina e sujeitas ao Seu poder.
Bíblia Shedd, Edições Vida Nova, 1ª edição, 1998 – São Paulo –SP. p. 1033.

II – O PROPÓSITO DO MAL (Tiago 1.2-4 e 1.12-15)

- Voltar ao porquê da permissão de Deus para a origem do mal faz com que nos encontremos num terreno mais sólido.
- De alguma forma o mal pode ser usado por Deus em seus propósitos. Não adianta fechar os olhos para o fato de que ao conceder livre-arbítrio aos anjos e depois a Adão, passou a existir a possibilidade da existência do mal.

- Porém não podemos imaginar que Deus permitiria algo que pudesse de fato arruinar Seus propósitos; nada colocou em risco o Seu grande projeto.

- A Confissão de Fé de Westminster diz: Desde a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho de sua vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém, de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas (III, 1).

- Essa talvez seja a afirmação mais precisa que já foi formulada sobre a origem de todas as coisas. Há uma tensão (paradoxo) admitida na frase, a de que isso não faz de Deus o autor do pecado, nem elimina a liberdade do homem.

- A única responsabilidade pelo mal que pode ser atribuída a Deus é que Ele criou um mundo no qual o mal era possível, e isso para demonstrar Sua glória pelo fato Dele saber lidar com isso e, ao final, conduzir tudo para o bem.
- A verdade é que a existência do mal segue os propósitos de Deus para esse mundo.

- Uma coisa precisa ficar clara: o Senhor não tem nenhum prazer em satanás e não compartilha de nenhuma de suas maldades, porém, Deus pode usar satanás para cumprir Seus propósitos.

- Não é que satanás queira gentilmente servir a Deus, ele luta desesperadamente contra Deus, mas tal é a Soberania do Criador, que mesmo em sua luta desesperada, satanás acaba contribuindo para que o supremo propósito de Deus se realize.
- Uma das maneiras que Deus usa o mal é para testar Seu povo (Tiago 1.2-4 e 1.12-15).

- O teste é uma prova de qualidade. Todo produto que seja confiável precisa de pressão para confirmar sua resistência.

- Nós recebemos a pressão do inimigo como forma de teste. Deus pode usar satanás como instrumento de punição também.

- Há pelo menos dois casos na Bíblia em que pessoas foram “entregues a satanás” como um castigo por seus pecados, um crente e um incrédulo (I Coríntios 5.5 e I Timóteo 1.20).
- Deus decretou que o ímpio sofra, e a satanás é meramente permitido trazer essa punição sobre ele.
- Deus permite a contínua existência de satanás porque este é de fato o Seu “chicote” para esse mundo, porém acima de tudo, Deus o usará pessoalmente para demonstrar Seu poder.

- Deus fará uma grande demonstração de Seu poder sobre o maior inimigo quando o aprisionar definitivamente no lago de fogo.

- Deus já tem demonstrado Seu poder sobre satanás hoje, resgatando as vitimas do império das trevas e trazendo-as a salvo para o Reino celestial.

- Ainda podemos dizer que, pelo fato de ter deixado que o mal se originasse, Deus criou a oportunidade de expressar ainda mais plenamente Sua graça e misericórdia. Esse caráter gracioso e misericordioso de Deus jamais teria sido demonstrado se o mal não tivesse se originado.

III – A DURAÇÃO DO MAL

- O mal não é eterno, pois não faz parte da essência das coisas que existem. O fato de que Deus vencerá o mal torna a existência dele razoável.

- O mal cumpre um papel estabelecido por Deus, e quando esse papel se acabar, Deus o eliminará e nunca mais permitirá que o mal reapareça.
- Aqueles que tentam explicar a existência do mal baseados no livre-arbítrio não têm resposta para a questão: o homem poderá novamente pecar?

- Se o livre-arbítrio de fato faz parte da constituição humana não há garantias de nossa salvação nem nesta vida, nem na vindoura. Nesta vida, a qualquer momento, poderíamos perder a salvação por um ato deliberado de nossa vontade, e mesmo no futuro, embora não tenhamos mais motivos para pecar, sempre teremos a possibilidade de pecar.

- Se alguém quiser afirmar que no futuro o homem não terá mais livre-arbítrio, poderia se perguntar então, por que deveria ter hoje?

- Não haverá livre-arbítrio no futuro, como de fato não existe hoje. Deus não permitirá que o mal entre novamente em Sua criação e corrompo-a outra vez; podemos ter certeza (Apocalipse 21.4).

IV – A ATITUDE CORRETA FRENTE AO MAL

Devemos ser equilibrados ao tratarmos do problema do mal, pois dois erros ocorrem e devem ser evitados:
1) Não dar qualquer importância ao mal;
2) Exagerar a importância do mal.
- Os teólogos liberais têm negado a existência do diabo. A teologia liberal que fez com que grande parte das igrejas evangélicas da Europa e dos Estados Unidos perdesse a relevância bíblica.

- O esvaziamento dessas igrejas é uma prova incontestável disso. Ignorar os desígnios do inimigo é praticamente decretar a vitória dele (II Coríntios 2.11).

- Numa guerra a pior coisa que pode acontecer é alguém ser pego de surpresa.

- Paulo fala dos “desígnios” de satanás indicando a ideia de que ele tem metas definidas, estratégias elaboradas, um programa de ação e opções a serem aplicadas conforme as circunstâncias.

- Não podemos ignorar que, “... quando o inimigo é invisível, maior é o perigo.”

- Há também aqueles que exageram a importância de satanás. Muitos estão desafiando o diabo abertamente, e até supostamente, entrevistando-o na televisão.

- O diabo tem sido o alvo principal de muitos movimentos evangélicos, que o veem praticamente em tudo. Em muitos casos a responsabilidade pessoal de cada um é minimizada, pois tudo o que acontece de ruim é atribuído ao diabo.

- Há uma verdadeira obsessão pelo diabo. É errado sacrificar o tempo do culto que deveria ser dedicado à adoração a Deus para promover uma luta contra o diabo. Equilíbrio, portanto, é necessário. Não devemos nem exagerar nem minimizar a importância do diabo.
- Seguir a Bíblia sempre será a melhor opção para não termos surpresas desagradáveis em nossa luta contra o mal (I Pedro 5.8-9; Tiago 4.7 e Efésios 6.13). Resistência é a palavra de ordem.

CONCLUSÃO

- Deus não é o autor do mal, mas a existência do mal segue os propósitos eternos de Deus.
- Em tempos tão confusos, relativos e sincréticos, precisamos destacar o absoluto antagonismo que há entre Deus e o diabo, entre o bem e o mal. Porém, não devemos pensar num dualismo cosmológico, pois bem e mal não são forças em pé de igualdade.

- O bem de Deus é soberano, ainda que o mal de satanás apareça mais neste mundo.

- A certeza é que a soberania do Deus bom garante que o mal será completamente eliminado da vida dos regenerados.

Autor: Leandro Lima

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